quinta-feira, 19 de julho de 2007
quarta-feira, 18 de julho de 2007
É a hora que o sino toca
É a hora que o sino toca,
MAS aqui não há sinos;
HÁ somente buzinas,
Sirenes roucas, Apitos
Aflitos, Pungentes, Trágicos,
Uivando escuro segredo;
Desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
Mas de há muito não há pássaros;
Só multidões compactas
Escorrendo exaustas
Como espesso óleo
Que impregna o lagedo;
Desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
Mas o descanso vem tarde,
O corpo não pede sono,
Depois de tanto rodar;
Pede paz-morte-mergulho
No poço mais ermo e quedo;
Desta hora tenho medo.
Hora da delicadeza,
Agasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
Bicando em mim, meu passado,
Meu futuro, meu degredo;
Desta hora sim tenho medo.
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
Publicada por
Mário Lima
à(s)
7/18/2007 04:28:00 da tarde
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